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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Vale dos Vinhedos exporta modelo de Enoturismo

Única região do Brasil a ostentar o selo de Indicação de Procedência em seus vinhos, o Vale dos Vinhedos vem exportando seu sistema enoturístico para outras regiões vitivinícolas de dentro e fora do Brasil. De acordo com Jorge Tonietto, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, o fato de obter esta indicação mostrou para o setor vitivinícola que o trabalho conjunto possibilita ganhos tanto na valorização do produto como na conquista de mercados. "É por isso que outras regiões produtoras de uva e vinho buscam no Vale o modelo que pode ser empregado no desenvolvimento da vitivinicultura em outros locais do Brasil e também do Exterior". Referência na Serra Gaúcha, o Vale dos Vinhedos já começa a influenciar regiões vitivinícolas de fora do Brasil. Representantes de países como Inglaterra, Estados Unidos e Suíça já estiveram no Vale para conferir in loco o trabalho desenvolvido na região. "Até da França, da região de Champagne, que já conquistou a Denominação de Origem tivemos visita", conta Adriano Miolo



Fonte : Revista Adega

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Concurso Mundial de Bruxelas - Edição Brasil 2009

Dez jornalistas brasileiros e oito estrangeiros, de países como Inglaterra, Bélgica, República Tcheca, Argentina, Itália, Alemanha, Portugal e Estados Unidos provam e analisam às cegas, desde a última quinta-feira (10) no JB Hotel, em Petrolina/PE, 142 amostras de vinhos finos (tintos, brancos, rose e espumantes) de 42 vinícolas brasileiras e 40 destilados (cachacas, grappas e conhaques) de 12 empresas, também do Brasil.De acordo com Eduardo Viotti, a escolha da região como sede do Concurso foi devido às suas peculiaridades. "Para se produzir vinhos, precisamos apenas de um bom solo e bastante sol, algo encontrado aqui durante todo o ano. Além disso, trata-se da segunda maior região produtora do país, com vinhos de qualidade ascendente. O Vale possui um grande potencial que precisa apenas de um empurrãozinho para despontar em todo o mundo", disse.Para o enólogo, o Vale já caiu no gosto dos estrangeiros. "Eles ficam maravilhados tanto com a nossa produção quanto pelo clima e beleza naturais encontrados na região. Como jornalistas, divulgarão suas opiniões positivas em seus países - que é o grande intuito desse Concurso, ser uma ferramenta de marketing para as empresas participantes", declarou Viotti.A jornalista inglesa Lilyane Weston, especializada em vinhos há mais de 40 anos e ligada à Federação Internacional de Jornalistas de Vinhos, mostrou-se encantada com a vitivinicultura da região. "Na Inglaterra em várias outras regiões produtoras, o clima é bastante instável e nunca sabemos se a única colheita do ano dará bons vinhos. Com o clima encontrado no Vale, é possível produzir o ano todo, e num mesmo vinhedo dá para ver uvas e vários estágios de maturação. É incrível", afirmou a jornalista.Todas as vinícolas do Vale tiveram exemplares inscritos no Concurso Mundial. Algumas empresas, inclusive, estão participando pela primeira vez da competição. “Há uma grande expectativa entre as vinícolas da região”, revelou o Secretário de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos de Petrolina Domingos Sávio, que prevê grande visibilidade para o Roteiro do Vinho - Vale do São Francisco após a realização do Concurso.“Temos grandes chances de termos a nossa produção premiada, mas é a região em si quem mais ganha por sediar uma competição como essa, em que jornalistas/jurados vão promover a região como novo destino enoturístico não apenas para os brasileiros, mas em todo mundo. É uma luta de muitos anos de instituições como Sebrae, Assitur e Prefeituras, e creio que chegou o momento do colher bons frutos”, declarou Domingos Sávio, que também é vice-prefeito do município.Para o enólogo e consultor do Instituto Brasileiro do Vinho (IBRAVIN), Leocir Bottega, quem mais ganha com o Concurso Mundial de Bruxelas e os outros que acontecem no Brasil, é o consumidor. “Ele vai poder conhecer quais são os vinhos que se destacam e se beneficiar da competição saudável, gerada por esses eventos”. Leocir Bottega crê que o vinho do Brasil ganhará ainda mais competitividade no mercado externo quando o próprio brasileiro passar a conhecer e consumir a bebida. “Fizemos algumas pesquisas de mercado e já estamos realizando diversas campanhas para tornar o consumo um hábito entre toda a população”, informou.A premiação do Concurso Mundial de Bruxelas – Edição Brasil 2009, realizado pela Vinopres e pela revista Vinho Magazine, com apoio do Ibravin, Apex, Sebrae, Empetur, Vinhovasf, Prefeitura de Petrolina, JB Hotel e Assitur, foi realizada ontem, sábado (12), no Espaço Festa Viva Buffet. Os vinhos e destilados concorrem às medalhas Gran-ouro, Ouro, Prata e Bronze.
Fonte: A Notícia do Vale

sábado, 1 de agosto de 2009

Casta Brasileira

Já foi dito, muitas vezes, que realidade e ficção podem se misturar, ou até mesmo trocar de lugar. Ao iniciar uma busca pela casta de uva brasileira por excelência, aquela que melhor represente o país para seus consumidores internos e externos, o que acontece é que realidade e marketing tomam seus lugares logo à frente, tal como sherpas numa expedição ao Himalaia. Abusando da metáfora montanhista, o Brasil talvez ainda não tenha fôlego para tal escalada e sua necessidade de fazê-la seja mínima. “Em vitiviníferas, somos apenas “fetos”. Há somente 50 anos que estamos lidando com estas variedades aqui no país e há pouco mais de 15 que se está fazendo alguma coisa mais séria”, resume Orgalindo Bettú, enólogo- chefe da inovadora Villa Francioni, de Santa Catarina, e um dos proprietários da mini-vinícola Vinhos Bettú, em Garibaldi. Para enólogos, pesquisadores e até mesmo para agrônomos, querer afirmar categoricamente que uma casta já tem potencial para se sobressair no país é um completo exagero. Eles sabem o tempo que se leva para cultivar uvas sadias em terras tão jovens, por tanto tempo cobertas por uvas não viníferas. A ciência, obviamente, se pauta por dados muito mais racionais do que a publicidade, mas não há como dizer que no mercado uma não dependa da outra. No entanto, o próprio Orgalindo Bettú admite que tem conseguido excelentes resultados (no vinhedo e na taça) com a Cabernet Franc, uma casta de origem francesa, um pouco mais leve do que a Cabernet Sauvignon, com toques mais herbáceos e menor acidez. A Cabernet Franc é bastante comum no Vale dos Vinhedos e amadurece antes da Cabernet Sauvignon, um fator positivo para a região. E também parece se adaptar bem a climas mais frios, como a região de São Joaquim, em Santa Catarina. Precipitação não é uma coisa boa em uma indústria que depende dos humores da natureza e da habilidade humana para se distinguir de seus pares. Então, aquilo que a princípio parecia uma grande jogada, pode cobrar um troco muito alto. É o caso do Chile com uma de suas mais emblemáticas uvas da atualidade: a Carmenére. Variedade antiga da região de Bordeaux, ela era considerada extinta até ter sido ‘encontrada’ no Chile, onde encontra-se muito bem adaptada. A história da uva extinta e recuperada também tem um apelo mercadológico inegável, e o vinho com ela produzido, normalmente de corpo médio e intenso aroma de frutos vermelhos, adapta-se bem a muitos paladares. Juntando os dois fatores, conquista-se uma parcela de mercado da qual nenhum produtor é capaz de reclamar. Alguns produtores, entretanto, não criam varietais de Carmenére e investem em uvas mais expressivas e tradicionais no Chile, como a Cabernet Sauvignon, capaz de produzir vinhos mais elegantes. Ainda precisamos ver se a publicidade da Carmenére será efetivamente capaz de aproximar o consumidor dos outros bons vinhos do país.
"O vinho não tem leis absolutas"Marta Agoas. enóloga
“As empresas tendem a investir naquilo que vai dar mais retorno. É uma questão de prioridade para enfrentar a competição”, conta Márcio Marson, Diretor Comercial da Vinhos Marson. Um bom exemplo é o tinto Famiglia da Marson, que começou com a Merlot como coadjuvante da Cabernet Sauvignon, na proporção de 20% para 80%. Hoje, apenas alguns anos depois, a combinação é de 50% e 50%. O que aconteceu é que as últimas safras de Merlot foram muito expressivas, dando ao vinho outras qualidades que o deixaram superior como um todo. Segundo Márcio Marson, a proporção só não é ainda maior por conta do preço.
Embora a Merlot seja uma espécie de consenso no Vale dos Vinhedos – vide os resultados obtidos com o Miolo Terroir e com o Salton Desejo, considerados premium –, e seus resultados pareçam mais estáveis, os grandes produtores costumam dizer que o Brasil não se diferencia dos demais países da América Latina, e até de alguns europeus, por conta de uma casta específica. O que pode diferenciar o Brasil no mercado mundial é seu espumante. “Do ponto de vista técnico-científico, já temos evidências importantes de que a nossa condição é ótima para os espumantes. O nosso solo tem acidez natural, coisa que na Califórnia e na Austrália, por exemplo, tem que ser corrigida quimicamente”, revela Mauro Zanus, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho e Diretor de Degustação da ABE (Associação Brasileira de Enologia). Segundo ele, a variedade Riesling Itálico seria sua casta de escolha, se tivesse que escolher apenas uma. Ele considera que sua adaptação ao Brasil é emblemática para a base de nossos espumantes desde a década de 40. Além disso, seu sabor quase neutro, ótimo frescor e frutado suave combinam muito bem com a Chardonnay e com a Pinot Noir, que amadurecem com alto grau de acidez e pouco açúcar em nosso país. Condições ideais para os espumantes de qualidade.
Aliás, qualidade deveria ser a palavra de ordem para a pauta futura do marketing do vinho brasileiro. “A percepção de qualidade depende da concepção físico-química e também da imagem à volta do produto”, completa Mauro Zanus, reconhecendo que a parte intangível dessa percepção é a mais difícil de ser alcançada, principalmente pelo público em geral, onde a propaganda precisa atuar. A escolha de uvas emblemáticas para representar o país esbarra ainda em uma perspectiva histórico-geográfica. Toda a Europa e sua admirável coleção de vinhos e de uvas é somente um pedaço do Brasil em território. Cada país produtor europeu tem terroirs com uvas específicas. As informações sobre essas uvas eram tão pouco importantes, que as legislações de alguns países nem permitiam que elas constassem nos rótulos. Só nos últimos anos, por pressão do Novo Mundo e seu duvidoso apreço por vinhos varietais, é que alguns países europeus estão colocando as castas nos rótulos. “Portugal, por exemplo, é muito nacionalista com seus vinhos. As castas são tradicionais e nas cinco regiões produtoras só há duas castas francesas permitidas. A legislação é antiga e limitadora. O fato do país ser pequeno, e as áreas de produção escassas, também não estimula as tentativas”, explica Marta Agoas, enóloga portuguesa da Dão Sul que trabalha para a ViniBrasil, no Vale do São Francisco. No caso de Portugal, existe ainda um outro fator, e desta vez de mercado: o diferencial dos vinhos portugueses reside, principalmente, em suas castas autóctones e nas combinações aperfeiçoadas ao longo dos séculos. É isso que o consumidor procura e reconhece nos vinhos portugueses. No Brasil, a questão já é diferente. Como nossa indústria de vinhos finos é muito recente, as leis ainda não são impeditivas da experimentação, e muitas possibilidades se abrem para nossos produtos. Mais prudente é aguardar os resultados das pesquisas com as novas castas antes de se aventurar a dizer que só uma delas representa toda a nossa diversidade. “Se é que já se pode falar em tradição no Vale do São Francisco, a uva Shiraz é a que apresenta o melhor resultado até agora. Ainda assim, estou surpresa com a qualidade que a Tempranillo vem desenvolvendo nos últimos tempos”, conta Marta Agoas. Ao se posicionar ao lado de outros países do Novo Mundo, o Brasil tende a querer ter sua Malbec, como tem os argentinos, sua Zinfandel, como tem os americanos, sua Pinotage como os sul-africanos. Mas nesse processo, deixamos de fora uma coisa extremamente importante: “De uma coisa temos certeza, quase todos os grandes e melhores vinhos do mundo são elaborados com mais de uma casta. Às vezes, até seis variedades misturadas. É preciso discernir perfeitamente o que é qualidade e o que é aperfeiçoamento marketeiro”, relembra Orgalindo Bettú. E mesmo aqui no Brasil, alguns de nossos resultados mais marcantes são assemblages, como o nosso tão aclamado espumante. Não se pode esquecer que, se essa discussão já chegou até nós, significa que nossa estrutura cresceu e já estamos prontos para escalarmos o mundo dos vinhos finos, como os sherpas numa expedição ao Pico da Neblina.